Posts made in dezembro, 2006


Nanoresenha # 005 – NR005 

José Saramago – As intermitências da morte

 

            Quem já leu Saramago, já sabe o que esperar. Uma literatura irônica, nem sempre sutil, uma cotovelada na orelha do sistema político português e, é claro, diálogos que se acotovelam pontuados apenas com uma vírgula seguida de uma Maiúscula.

            Lendo “As intermitências da morte” me lembrei do livro Bartleby e Companhia, em que o escritor Enrique Vila-Matas apresenta um personagem que acreditava que Saramago lhe roubava as idéias para escrever seus livros. Mal ele havia pensado em um projeto de livro, em poço tempo Saramago lançava o livro com a idéia por ele pensada. Lembrei porque eu mesmo tenho comigo uma teoria que os “normais” chamariam de maluca: a da mortalidade condicionada à crença na inevitabilidade da morte. Em outras palavras: só se morre porque se quer ou porque se acredita que todos devemos morrer em algum momento. O primeiro passo para a imortalidade é acreditar que ela é possível.

            Voltando ao livro, Saramago conta a história de um país em que, de uma hora para outra, a morte resolve parar seus trabalhos e ninguém mais morre. O que parece ser uma bênção é, na verdade, uma tragédia. Saramago narra, com muito humor, o ponto de vista dos agentes funerários, das companhias de seguro, da Igreja e, é claro, com sarcasmo e grossa ironia, do Estado. A história, a partir da metade do livro, tem uma reviravolta interessante, quando passa a focar sobre a vida de um cidadão apenas – um músico, mais especificamente um violoncelista – que, por uma falha indescritível da morte, tem sua vida adiada involuntariamente e a morte dica sem saída para terminar seu trabalho.

            Se não é um romance denso e profundo, serve para algumas reflexões acerca da morte e o morrer, como diria Elisabeth Kubler-Ross. Leitura de fim-de-semana. Necessita atenção em função da pontuação. Lido entre 23-25/DEZ/2006.

 

Companhia das Letras – 2005 – 3ª impressão

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Nanoresenha # 004 – NR004

Daniel Galera – Mãos de Cavalo 
 
 
 
    Este é primeiro livro do "cumpadi" Galera que ponho nas mãos. Deixei passar a coletânea de contos "Dentes guardados" de 2001 e o romance "Até o dia em que o cão morreu", de 2003. Mas isso não foi desconsideração de forma alguma. Acompanho o Galera desde os tempos imemoriais em que ele escrevia no saudoso e hibernante (prefiro pensar assim) CardosOnline. 
    Apesar de nunca travarmos contato senão por um ou outro mail, senti, após a leitura de Mãos de Cavalo, como se tivéssemos passado boa parte da infância juntos. O assim chamado "romace de formação" de Galera narra, em uma lentidão gostosa, plena de ricos detalhes espaciais, sensoriais e setimentais, três momentos da vida de um mesmo homem, aos 10, 15 e 30 anos.
    Nas idas e vindas temporais presenciamos, quase cinematograficamente – porque é fácil visualizar a cena, da forma minunciosa com que é descrita -, a construção do futuro de um ser humano. Fios que são deixados soltos mas que precisam ser costurados para que p teido da vida faça algum sentido.
    É isso que Galera faz nesta fantástica obra: costurar o tecido da vida de um homem, que poderia ser qualquer um de nós, homem ou mulher. A trama, se não caracterizada por imbricações excessivas, encanta pela sutileza, pela beleza e pela memória da transição da década de 80 para a década de 90, vivenciada por relatos que fazem sentido para quem viveu a época.
    Posso dizer que aprendi bastante com o jovem escritor, saúdo e aplaudo seu belo livro. Lido entre 21-23/DEZ/2006, agradavelmente e sem esforço.
 
Companhia das Letras – 2006 – 1ª edição 
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Nanoresenha # 004 – NR004 

Salvador Elizondo – Farabeuf

 

            Quem resolver se aventurar na leitura de Farabeuf deve munir-se de cautela. Extrema. Deve saber que deverá ser extremamente tenaz na leitura de seus dois primeiros capítulos. O escritor dará de tudo para que você desista da leitura. Haverá momentos em que seu desejo será de rasgar o livro em mil pedaços e amaldiçoar aquele seu amigo que o indicou a leitura da obra. Acontece que a perseverança quase sempre é premiada. Já ao começo do terceiro capítulo, um pequeno vão entre grossas cortinas de veludo deixa escapar um tênue fio de luz, que indica ao leitor a presença de algo iluminado ali atrás. Isso dá fôlego para seguir na leitura e descobrir, página a página dali adiante a genialidade deste escritor mexicano.

            Já ao final do terceiro capítulo estamos capturados e plenamente necessitados de descobrir, afinal, o que está acontecendo. Do que se trata esta história, aparentemente tão sem pé nem cabeça, que nos é introduzida de forma ora poética ora delirante e que desliza entre a memória e o esquecimento, usando fluxos de tempo e rápidas e constantes trocas de voz narrativa para confundir e prender o leitor.

            Ao término da leitura deste livro, feito para ser lido pelo menos 3 vezes, dá vontade de aplaudir. De pé, como se faz quando somos tomados de verdadeira emoção. Para quem gosta de escrever, é uma mão cheia: o livro é repleto de idéias tão diversas e estímulos tão distintos que você vai precisar de um bloco de anotações para apontar todas suas percepções.

            O ideal seria lê-lo em uma sentada só. Eu o fiz em três dias, em cerca de 6 horas pulverizadas neste intervalo. Necessita de muita atenção, silêncio e concentração para uma boa leitura. Lido entre 16-18/DEZ/2006.       

 

Amauta Editorial – 2004 – Tradução de Marcelo Barbão

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Nanoresenha #003 – NR003

Jean-Paul Sartre – Esboço para uma teoria das emoções

 

            Este pode ser considerado um prólogo ao pensamento existencialista de Sartre, uma espécie de introdução à sua obra essencial “O Ser e o Nada”. Em “Esboço…” Sartre faz uma crítica da psicologia enquanto tentativa de ciência e propõe uma abordagem fenomenológica para uma possível “teoria das emoções”.

            Sartre impõe seu próprio background, formado sob influência de Kant, Hegel, Heidegger e Husserl, na composição de uma teoria que, em síntese, conclui que a emoção é um fenômeno da crença. Portanto, é necessária uma experiência prévia, formadora da crença, para que à emoção seja dado significado. Significado este necessário para a própria definição de emoção. Para Sartre, há clara distinção entre a emoção enquanto comportamento ou conduta, enquanto sinal fisiológico e enquanto entidade completa.

            Pode-se por exemplo, ao sentirmos medo, parar de fugir, mas não parar de tremer, se o medo ainda está presente. Nesse caso, cessar a conduta não evita a emoção. Cessa a conduta, mas o sinal fisiológico ainda se mantém. Pode-se simular alegria ao receber um presente do qual não necessariamente gostamos mas temos necessidade social de demonstrar gratidão – esboçamos aí não emoção, mas uma conduta que visa se adaptar a uma determinada situação. De fato, não estou alegre, apenas mimetizo a conduta.

            Conforme Sartre, “…a emoção não é simplesmente representada, não é um comportamento puro: é o comportamento de um corpo que se acha num certo estado; o simples estado não provocaria o comportamento; o comportamento sem o estado é comédia; mas a emoção aparece num corpo perturbado que mantém uma certa conduta. A perturbação pode sobreviver à conduta, mas a conduta constitui a forma e a significação da perturbação. Por outro lado, sem essa perturbação a conduta seria significação pura, esquema afetivo.”

            Livro difícil, requer leitura muito atenta por 3 horas e releitura de certos trechos.  Lido em 14/DEZ/2006.

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Nanoresenha # 002 – NR002 

Arthur Rimbaud – Uma temporada no inferno

  

            Rimbaud, o jovem poeta que publicou sua última obra aos 21 anos, escreveu esta obra entre abril e agosto de 1873, pouco após acabar seu caso romântico com o poeta Paul Verlaine, receber um tiro deste e mandá-lo para a prisão por dois anos. Neste contexto, o jovem poeta, na ocasião com 18 anos, desfere toda sua angústia, lirismo, dor e violência em oscilações entre o metafórico e o real.

            Em “Delírios – Virgem Louca” (Delires – Vierge Folle), entramos na pele do jovem Rimbaud travestido de mulher, escrevendo como que uma carta ao seu amado Verlaine, que descansa atrás das grades. Já em “O impossível” (L’Impossible), o desprezo pela falsa razão, pela política, por tudo que é excessivamente valorizado e idealizado é centro de seu ataque. A Igreja, Cristo, a ciência e os filósofos, todos vão para o mesmo saco de lixo, para depois serem queimados e virarem cinzas.

            Recorrentes menções a Deus, sempre de caráter negativo ou obscuro, ao ambiente e personagens ébrios, defeituosos moralmente, como um espelho de si mesmo – refletido pela sociedade da época, esse é Rimbaud em “Uma temporada no inferno”.

            Requer leitura atenta para captar as nuances que devem ser percebidas; 1 a 2 horas é o tempo necessário. Lido em 14/DEZ/2006.

 

L&PM Pocket Plus – Edição bilíngüe – Inverno de 2006 – Tradução de Paulo Hecker Filho

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