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Imagine se você não precisasse mais se preocupar em trabalhar para juntar dinheiro para comprar coisas, e você as tivesse à sua disposição, quando precisasse, próximo da sua casa, pelo tempo que você precisar, a uma fração do custo de adquiri-la. E, mesmo que você não tivesse dinheiro, você também pudesse usufruir destas “coisas” que você necessita?

 

Então, isso já é possível, dentro do conceito de Tudoteca.

 

Berkeley_Public_Library_tool_lending_library,_insideA Tudoteca é uma ideia que tive lá pelos idos de 2007-2008 e foi inspirada em dois conceitos: o de Cohousing (que também me inspirou a criar a Coolmeia, naqueles anos) e o conceito de Tool Library, que vim a conhecer lá por 2011-12, e ajudou a aperfeiçoar o modelo da Tudoteca.

Bem, e o que é exatamente, para quê serve e como funciona essa tal de Tudoteca? Explico. Pega um café, suco, água, mate gelado ou um chimarrão e presta atenção vivente, que a história é boa de se ouvir!

 

In Boulder, Colorado the Tool Library looks much like a hardware store and even rents out tools to contractors to help subsidize rental costs and membership fees for the general public.

 

 

Imagine um lugar no qual você possa pegar emprestado “quase” qualquer utensílio de uso eventual para sua casa, local de trabalho, viagem, festa… Um local no qual estariam disponíveis para empréstimo desde ferramentas de uso eventual como furadeiras, serras elétricas, escadas de vários tamanhos, aspiradores de pó, lava-jatos portáteis, ferramentas de mão como martelos, serrotes, chaves de fenda, de boca, alicates, tornos…

 

 

Além disso você poderia pegar emprestado louças, talheres, copos e toalhas de mesa para aquela festa de formatura do seu filho ou aniversário da sua filha (que se fossem alugados custariam os olhos da cara!)… E você também poderia pegar emprestados livros, revistas, CDs, DVDs, roupas, um freezer, frigobar, chaleiras, liquidificadores, microondas, forno elétrico, batedeira, panificadora… Quer acampar? Para quê comprar se você pode pegar emprestada uma barraca, lanterna, uma churrasqueira portátil, um par de rádio-transmissores de longo alcance, varas de pescar…

pratos-e-talheres

 

Nesse mesmo espaço, encontraríamos também uma padaria comunitária, na qual os membros do coletivo que irá autogerir a Tudoteca se revezariam na produção, distribuição e eventual comercialização do excedente lá produzido. Poderíamos também ter um refeitório ou restaurante comunitário, que ofereceria refeições produzidas com alimentos orgânicos produzidos por pequenos agricultores das redondezas.

Padarias-comunitarias

O mesmo sistema de rodízio e escala de trabalho aqui também se aplicaria. E que tal um café funcionando no mesmo espaço, o dia inteiro, para quem está de passagem e quer encontrar um amigo enquanto lê um livro ou escuta uma música na vitrola que está à disposição dos associados?

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E se, além disso, na Tudoteca também tivesse uma lavanderia coletiva, em que as máquinas pudessem ser usadas em troca de alguns “pontos de crédito” dos associados?

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E, ainda mais, se tivéssemos uma pequena Brinquedoteca para as crianças poderem se divertir enquanto os pais trabalham ou circulam pela Tudoteca?

brinquedoteca

Não seria macanudo tudo isso num mesmo lugar, agradável, aconchegante e efervescente cultural e socialmente, recebendo vez ou outra oficinas, seminários, rodas de conversa, encontros de aprendizagem informais, apresentações musicais e artísticas, saraus, cineclubes, fotoclubes, green drinks, pecha kucha nights, stand ups?

E o mais legal de tudo isso: poderia participar quem tem grana, quem tem coisas sobrando e mesmo quem não tem grana nenhuma, só um pouco de tempo para trocar. Como assim? Explico:

Tudoteca, para se tornar sustentável, funcionaria como uma associação horizontal e autogerida.

Opção 1: Se você tem grana, você paga digamos 39,90 ao mês por 300 créditos, 59,90 por mês por 500 créditos ou 79,90 por mês por 800 créditos e pode trocar estes créditos por X dias dos produtos W, Y e Z que você precisa naquele mês. Se não quer pagar mensalidade, você pode se associar e, por cada 1 real você comprar 5 créditos para poder emprestar algum bem ou serviço determinado (digamos que você só está na Tudoteca pelo maravilhoso pão de arroz integral sem glúten que a Daiane faz…)

Opção 2: Se você não tem grana, mas tem “coisas” que estão paradas na sua casa, você pode doar estas coisas para a Tudoteca – por exemplo uma parafusadeira, uma guitarra e um amplificador que você não toca mais, um jogo Banco Imobiliário e 2 decks de Super Trunfo e um secador de cabelo que sua ex-namorada esqueceu no seu apartamento – e em troca delas, você ganha créditos e passa a usá-los para emprestar coisas das quais você realmente precisa.

Opção 3: Tá! Mas eu não tenho grana e também não tenho nada para doar. Sou um estudante universitário pé-rapado, sou morador de rua, tenho um emprego que mal dá pra sustentar minha família. E agora. Preciso de uma furadeira só por um dia pra consertar algumas coisas lá em casa. Neste caso, você pode oferecer algo que todos seres vivos (enquanto vivos) temos: tempo! Você pode oferecer um sábado pela manhã da sua vida para ajudar a alcançar os objetos para quem for na Tudoteca pegá-los, pode ajudar na padaria ou no restaurante comunitários, pode ajudar na limpeza, buscando nossos hortifrutigranjeiros orgânicos ou mesmo cuidando das crianças na Brinquedoteca. Em troca do seu tempo, você ganha os créditos que você vai trocar pelo que você quiser. Sempre que eles acabarem, não tem problema: só oferecer o seu tempo novamente!

Ei, mas espera aí! Vai ter gente trabalhando na Tudoteca em troca de créditos e depois vai vender por fora para ganhar uns trocos. Mercado Negro! Pode isso? Sabe que só pensei nisso agora, nesse exato instante? Eu, Rafael, não vejo problema nisso. Mas e o resto das pessoas do coletivo, o que pensam? Acho que esse é um dos assuntos que deve ser deliberado coletivamente, bem como outros detalhes que devem ser registrados em uma Carta de Princípio e em uma Bases da Unidade (que também podemos chamar de Termos de Uso) da Tudoteca.

Tá, e essa grana que vai entrar na Tudoteca, pra quê serve? Vai enriquecer alguém? Nããão! O dinheiro que entrar será usado em parte para consertar e repor equipamentos, peças e ampliar o acervo de bens e serviços da Tudoteca, uma parte será reservada na forma de um Fundo de Emergência para os Associados, em caso de catástrofes naturais ou épocas de crise (estão vendo as nuvens negras da tempestade se aproximando no horizonte?) e uma parte será reservada para um Fundo de Multiplicação de Tudotecas, para criar a Tudoteca 2, a Tudoteca 3, a Tudoteca 4 e assim por diante, nas comunidades que forem se apresentando e demonstrando desejo de possuir uma na vizinhança.

E aí? Gostou da ideia? Supimpa né? Valeu, obrigado! Também acho! 🙂

Ah! tem outras ideias que já foram desenvolvidas pensando na expansão e no “espalhamento” de Tudotecas por todos os cantos do Brasil e do Mundo.

Quer saber quais são elas e fazer parte do time que vai planejar a instalação da primeira Tudoteca no Brasil? Coloca teu nome e e-mail aí embaixo que entramos em contato!

Agora, se você se empolgou de verdade e quer fazer parte do time que vai fazer as Tudotecas se espalharem pelo mundo, vá direto para o nosso Mapeamento de Ativos e Necessidades e apresente-se!

 

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Saúde para quem precisa

Saúde para quem precisa


Publicado Por em maio 5, 2015

“Polícia para quem precisa
Polícia para quem precisa
de Polícia…”
Titãs

    Para começar, bom dia caro leitor.

Comunico que acabo de colocar fora o artigo que tinha escrito para esta edição, em função dos últimos acontecimentos nesta Terra brasilis.

    Enquanto escrevo estas linhas, os noticiários estão literalmente pegando fogo: jamais na história deste país, por tantos dias seguidos e em tantas cidades, ocorreram aglomerações de tantos cidadãos protestando por tantas causas justas e necessárias. Uma heterogeneidade de métodos, desde passeatas e protestos pacíficos até depredação de patrimônio público e privado, entretanto, tornam difícil uma análise fácil das mobilizações como um todo.

    Neste mesmo momento, uma série de decisões importantes relacionadas à saúde da Nação e da população são tomadas: desde a votação da PEC 37, que visa eliminar a capacidade do Ministério Público Federal de investigar crimes e lutar contra a impunidade em nosso país, passando pela aprovação na Comissão de Direitos Humanos da Câmara do que foi chamado de “Cura Gay”, ou seja, a possibilidade de psicólogos proporem tratamento para a homossexualidade, indo contra ao próprio Conselho Federal de Psicologia que proíbe que a homossexualidade seja vista como doença e, mais recentemente, a aprovação do Ato Médico no Senado, que reserva exclusivamente aos profissionais médicos a prerrogativa de diagnosticar, prescrever medicamentos, realizar cirurgias, internações e altas hospitalares.

    Um pouco antes, a notícia da vinda de médicos cubanos para responder à uma demanda de cidades isoladas do país, nas quais existe uma demanda significativa por profissionais médicos que não é atendida pelos médicos formados em nosso país, gerou polêmica e é criticada por uns e aplaudida por outros.

    Meditando sobre a complexidade inerente a cada situação, em seus múltiplos pontos de vista possíveis, observando beneficiados e prejudicados, lados fortes e fracos da equação, os interesses claros e obscuros por trás de cada medida, escolhi as posições que devo ocupar. Como ser político que sou, minha saúde e qualidade de vida – entendida pela imbricada teia de variáveis que constituem o que é ser saudável para bem além do corpo, incluindo as variáveis ambientais e sociais – dependem também das decisões que são tomadas em relação a quem vai monitorar a criminalidade organizada e a corrupção ativa em meu país, em perceber se os cidadãos com os quais convivo estão ficando mais ou menos tolerantes com a diversidade, em me dar conta de quais são, de fato, as pessoas que podem cuidar de minha saúde física e mental, bem como de meus amigos, familiares e pessoas que prezo e, também, em como está garantida, por lei, pelo mercado ou pela facilidade de acesso, o meu contato a profissionais qualificados para promover e restituir minha saúde.

    Para cada variável, podem existir prós e contras, mas nem sempre podemos ser duais.

Não podemos ao mesmo tempo permitir e não permitir algo. Temos que nos posicionar. Eu tomei minha posição. Você tomou a sua?

(publicado originalmente em 2013 na Revista DOC)

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Premissas:

# A automação pode representar a liberação dos seres humanos, no momento em que substitui a força de trabalho humano deixando-o o livre para atividades contemplativas e prazerosas

# Para que isso seja verdade, os benefícios da automação devem ser divididos entre toda a espécie humana

# É fato que, no mundo contemporâneo (2015), os frutos da automação estão sendo auferidos para uma pequena parcela desta mesma espécie humana, e são restritos a grupos econômicos, corporações e pessoas que detém o capital e os meios de produção

# O desemprego – ou incapacidade de encontrar um meio de labor que sustente de forma satisfatória a vida de um indivíduo e sua família – é uma realidade em praticamente todos Estados Nação – excetuando-se talvez o Vaticano, Liechtenstein, o Principado de Mônaco e o Principado de Sealand.

# O desemprego funciona, dentro do sistema capitalista, como uma ferramenta a serviço da precarização do trabalho e para a manutenção dos baixos salários da população assalariada, já que a massa desempregada funciona como lastro para a substituição de empregados que não se adaptam aos baixos valores praticados

# O desemprego poderia ser atenuado em parte através de uma visão mais empreendedora dos indivíduos, que, mesmo com oportunidades insuficientes, poderiam usar a engenhosidade e a criatividade para gerar renda para si mesmo, através da observação das necessidades não atendidas em cada localidade

# O desemprego poderia ser atenuado em parte através da formação de cooperativas que permitam a associação autônoma de indivíduos que se especializam em uma determinada área de atuação

# O desemprego poderia ser atenuado imediatamente, de forma top-down, através da limitação das horas de trabalho em 6 horas ou 4 horas

# A terceirização – ou subcontratação de serviços de outrem para realização de tarefas que foram a alguém contratadas – é uma faca de “dois legumes”, pelo menos no Brasil: ao mesmo tempo em que permitiria a otimização de processos produtivos e a inclusão de novos parceiros em atividades de criação de valor, quando usada de forma totalmente liberal em um mercado capitalista, acaba por gerar a perda dos direitos historicamente adquiridos pela classe trabalhadora

# A terceirização, dentro de um contexto de Economia Solidária, é uma forma de realizar tarefas e atividades produtivas que um determinado grupo, coletivo ou comunidade não tem capacidade de realizar, sendo então vista como algo mutuamente benéfico aos grupos envolvidos

# Surgem cada vez menos oportunidades de trabalhos com longo vínculo (estáveis) e cada vez mais trabalhos autônomos temporários (bicos/instáveis)

# A precarização do trabalho é ferramenta do sistema capitalista liberal para garantir a manutenção do status quo, baixos salários e contingente populacional ávido por qualquer oferta de emprego ou subemprego

# Formas flexíveis de contratação – como as derivadas da terceirização – contribuem ainda mais para a precarização do trabalho

foto de Pedro Martinelli: "Esta fotografia foi feita no dia primeiro de maio de 1971 no jogo Palmeiras X Guarani no Parque Antártica, segundos depois que o juiz colocou a bola na marca branca do meio do campo."

foto de Pedro Martinelli: “Esta fotografia foi feita no dia primeiro de maio de 1971 no jogo Palmeiras X Guarani no Parque Antártica, segundos depois que o juiz colocou a bola na marca branca do meio do campo.”

Analisando historicamente e evolutivamente o contexto no qual nos situamos, não será pela via político-partidária ou através de qualquer forma institucionalizada vinculada ao Estado e seus grupos econômicos financiadores e expropriadores que se resolverá as situações acima descritas.

A criação de alternativas deve seguir vindo de baixo para cima, com a formação de cooperativas conscientes, estabelecimento de ecovilas, ecopolos, comunidades intencionais despertas, comunidades autogestionadas com capacidade produtiva variada, aplicação de conceitos da Ciência das Redes e dos princípios da economia solidária, da cultura do conhecimento livre e da cultura peer-to-peer.

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Manifestação popular e trabalhista em Paris, primeiro de maio de 1999

 

Como complemento de leitura, sugiro o livro de Alexis Rowell, “Communities, Councils & a Low-carbon Future – What we can do if governments won’t”. Escrito dentro do contexto das Cidades em Transição, ele foca em vários aspectos interessantes e fundamentais para a constituição de uma vida em sociedade mais harmônica, justa, equânime, convivial e sustentável, como por exemplo a biodiversidade, eficiência energética, cooperação, água, reciclagem, trabalho coletivo e co-working, bem-estar, ativismo, boas práticas, geração de energia, transporte, espaços verdes, planejamento comunitário, etc.

Somente dentro de comunidades que são fundadas e se mantém a partir de princípios éticos claros e transparentes, que a exploração do homem pelo homem e os vícios de dominação e opressão do humano sobre o humano e sobre os outros seres pode deixar de existir.

Não será em uma sociedade na qual seres humanos guiados por interesses próprios e egoístas, a serviço de outros tão ou mais interesseiros e egoístas quanto, que conseguiremos nos livrar da hierarquia, da expropriação do tempo alheio em benefício de poucos e da humilhação de uns para o deleite de outros, substituindo-os por uma sociedade na qual os princípios de fraternidade, solidariedade, apoio mútuo, sustentabilidade e justiça social sejam favorecidos.

São pequenas reflexões para um primeiro de maio atípico, no qual o resto do dia será realmente dedicado ao descanso, à contemplação e à reflexão sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos…

Leitura sugerida:

Internetocracia Brasil: Desemprego e Precarização do Trabalho e comentários associados.

precarizacao

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