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Quando crianças, na década de oitenta, sempre brincavam conosco, quando dizíamos que éramos de Agudo:

    • E a televisão já chegou em Agudo?

Essa brincadeira derivava do fato de, naquela época, Agudo ser uma pequenina cidade de cerca de 13 mil habitantes, com mais da metade deles morando na área rural da cidade.

Para os moradores, claro que isso era um exagero. As coisas até poderiam chegar com um certo atraso, mas não tanto!

monitoramento policialPois então, na última quinta-feira à noite cheguei à minha cidade natal mais uma vez, depois de um pouco mais de seis meses sem passar por aqui e, logo na entrada, uma imagem me chama a atenção: no meio da avenida principal da cidade, um poste com câmeras de “monitoramento policial” apontando para todos os lados.

A primeira palavra que vêm à cabeça da maioria das pessoas é “progresso”! Ou talvez “segurança”! Agora, pensam, os bandidos não terão chance, ficará mais fácil de monitorá-los e rastreá-los! Tanto os ladrões quanto aqueles que promovem irregularidades no trânsito.

E quanto ao cidadão comum? Que tal ser monitorado 24 horas por dia? Ter uma câmera com sabe-se lá quem acompanhando seus passos pela tua cidade? Que tal você, jovem casal de namorados, sentado no banco da praça, trocando carícias e beijos e tendo suas imagens gravadas por algum policial ou técnico de segurança? Quando se fala de mobilizações públicas então, nem se fala: pode-se usar as gravações destas manifestações para encontrar supostos líderes ou então pinçar qualquer pessoa que tenha tido algum comportamento que “ofenda” o que o “Estado de Direito” representa – mesmo que este “estado de direito” não represente mais a própria população e sim os interesses de poucas corporações e grupos econômicos e políticos.

Para mim, esse monitoramento lembra outra palavra, e esta é “controle”.

Michel Foulcault em seu memorável livro “Vigiar e Punir” já prenunciava o surgimento desta Sociedade do Controle. Dizia:

[…] O poder disciplinar é […] um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior “adestrar”: ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. Ele não amarra as forças para reduzi-las; procura ligá-las para multiplicá-las e utilizá-las num todo. […] “Adestra” as multidões confusas […] (FOUCAULT, 2005, p.143).

Na sociedade disciplinar os indivíduos sentem-se controlados pela força do olhar, uma vez que no poder panóptico, o observador está permanentemente presente a observar e a vigiar os indivíduos. Sendo assim, Foucault (2005, p.169) considera que:

O Panóptico funciona como uma espécie de laboratório de poder. Graças a seus mecanismos de observação, ganha em eficácia e em capacidade de penetração no comportamento dos homens; um aumento de saber vem se implantar em todas as frentes do poder, descobrindo objetos que devem ser conhecidos em todas as superfícies onde este se exerça.

O panóptico permitiu aperfeiçoar o exercício do poder no final do séc. XVIII. O poder disciplinar panóptico, por meio da visibilidade, da regulamentação minuciosa do tempo e na localização dos corpos no espaço, possibilitou o controle sobre os indivíduos vigiados, de forma a torná-los dóceis e úteis à sociedade, instaurando, dessa forma, uma nova tecnologia do poder.

A câmera nos traz essa “quase certeza de que seremos punidos”, pois nossa imagem está lá, registrada com nossa face e hábitos expostos.

O controle que ora se apresenta é o mecanismo de um Estado neofascista que, usando a desculpa da segurança dos cidadãos está, na verdade, cerceando toda e qualquer forma de atividade que possa por em risco seu próprio fim, assumindo uma posição totalitarista que tenderá a reprimir toda e qualquer ação de minorias organizadas, por mais justa que possa parecer. Tal ação será taxada de “subversão à ordem pública”. As câmeras de vigilância servem a uma sociedade normalizada e hipernormatizada, onde quem dita as regras não é a população, de baixo para cima, mas o topo da pirâmide já constituída que, nos dias de hoje, nada mais é do que o conjunto de alguns banqueiros, megaempresários e coronéis de anteontem que ainda se reproduzem nas estâncias e fazendas do Brasil.

tirinha de André Dahmer
tirinha de André Dahmer

Para Billouet, (2003), o panoptismo possibilita uma sujeição concreta mediante uma relação fictícia. O panóptico foi desenvolvido a partir do “princípio de que o poder devia ser visível e inverificável” (FOUCAULT 2005, p.167). Desse modo, o detento sempre teria diante dos olhos a figura da torre central de onde será espionado, ao mesmo tempo em que não saberia se está sendo observado, deveria ter a certeza de que poderá sê-lo. Com isso, não seria necessário recorrer à força para obter dos indivíduos o bom comportamento, por exemplo, “o louco à calma, o operário ao trabalho, o estudante à aplicação, o doente à observação das recomendações” (BILLOUET, 2003, p. 133).

Ao controle do corpo através da imagem, somam-se, nos dias modernos uma série de outros mecanismos que substituiram o aprisionamento em celas e jaulas: o aprisionamento através do cartão de crédito e das dívidas de compras; através dos números de identificação em documentos oficiais, modernamente avançando para controles por chips RFIDs, com possibilidade de localização geográfica; através de aparelhos celulares sempre ligados, também facilmente localizáveis e rastreáveis; através de nossos passos nas redes sociais e “pegadas” online. Controle na prisão, na escola, no hospital, no trabalho, nas ruas, na sociedade em geral…

Essa sujeição é obtida através de um saber e de um controle que constituem o que Foucault chamou de uma tecnologia política do corpo, que para ele, trata-se de uma microfísica do poder. Essa nova anatomia política deve ser entendida, como: […] uma multiplicidade de processos muitas vezes mínimos, de origens diferentes, de localizações esparsas, que […] Circularam às vezes muito rápido (entre o exército e as escolas técnicas ou os colégios e liceus), às vezes lentamente e de maneira mais discreta (militarização insidiosa das grandes oficinas) […](FOUCAULT, 2005, p. 119). Deste modo, o tempo é quantificado, o espaço medido, o corpo do operário, do aluno, do soldado, é disciplinado, medido em seus movimentos harmonizados dentro do movimento da sociedade. A punição terá agora a função de corrigir os indivíduos para estabelecer relações de poder, como forma de controle para atender aos interesses da burguesia que necessita de corpos úteis, produtivos, disciplinados (FOUCAULT, 2005).

Nesse sentido, o corpo será submetido a uma forma de poder que irá desarticulá-lo e corrigi-lo através de uma nova mecânica do poder. As práticas disciplinares permitem o controle das operações dos corpos e a sujeição constante de suas forças, impondo-lhes uma relação de docilidade e utilidade.

Assim, caros amigos Foulcault e Deleuze (não te citei aqui, mas sabes que te quero bem, né não?), lamento informar: a Sociedade Disciplinar, a Sociedade do Controle, chegou em Agudo, em plena Avenida Concórdia. Mas a luta está apenas começando…

Para uma leitura um pouco mais detalhada, mas ainda resumida, sobre a obra Vigiar e Punir, de Foulcault – http://www.cchla.ufrn.br/saberes/Numero4/Artigos%20em%20Filosofia-Educacao/Noelma%20C%20de%20Sousa%20e%20Antonio%20Basilio%20N.%20T.%20de%20Meneses,%20uma%20leitura%20em%20Vigiar%20e%20Punir,%20p.%2018-35.pdf (de onde foram tiradas as citações acima)

Para uma leitura detalhada, recomenda-se a obra do próprio autor.

Algumas páginas para leitura rápida, da wikipedia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Pan%C3%B3ptico e http://en.wikipedia.org/wiki/Panopticon

http://pt.wikipedia.org/wiki/Vigiar_e_Punir

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Acenando em direção à Utopia

“A mudança revolucionária não vem como um momento cataclísmico.. mas como uma sucessão sem fim de surpresas, movendo-se em zigue-zague em direção a uma sociedade mais decente. Nós não precisamos nos engajar em grandes e heróicas ações para participar do processo de mudança. Pequenos atos, quando multiplicados por milhões de pessoas, podem transformar o mundo.”Howard Zinn, em O Otimismo da Incerteza, 2004

Existem três outras coisas cruciais que anarquistas tem em comum. Elas emergem do grito anarquista contra tudo que é injusto na sociedade e evolue da sua raiva contra tudo que obstrui a liberdade substancial. Elas também corporificam a exuberância de tudo que é possível no mundo, sua alegre defesa das éticas que moldam sua práxis variegada. Estas três são as Visões Reconstrutivas, as Políticas Prefigurativas e as Formas de Auto-organização anarquistas.

Anarquistas estão acostumados a perder. A história da luta por valores não hierárquicos é uma luta trágica e sangrenta. Ainda para citar Moxie Marlinspike, anarquistas “sabem que existem momentos no tempo, mesmo precedendo a derrota, em que as pessoas aprende mais sobre elas mesmas, e sentem um grande senso de inspiração daquilo que estão experenciando, que de todas as vitoriosas navegações de George Washington por todos os rios Delaware do mundo”. O processo instável de construir um mundo melhor significa relembrar que o anarquismo é uma tradição muito bela – uma que acolhe outras belas tradições. É sobre lembrar o que os anarquistas e outras pessoas afins criaram através da história. Sim, o objetivo é vencer, mas de várias formas, grandes e pequenas, já ganhamos muito. O Anarquismo faz as perguntas certas acerca da transformação social, e então explora múltiplas formas de respondê-las, mesmo que ele nunca encontre “A Resposta”.

Visões Reconstrutivas

O Anarquismo é mais do que uma consciência social ética e vibrante, e mais do que uma crítica e visão social. Os anarquistas não apenas falam sobre melhores formas de organização social. Eles se atiram no modelamento de novos mundos, mesmo que isso signifique construir castelos – ou coletivos, comunas e cooperativas – nas areias da sociedade contemporânea. Anarqusitas acreditam que as pessoas irão “pegar” o anarquismo visceralmente e intelectualmente no processo de vê-lo em ação, ou melhor ainda, experimentando com seus valores por elas mesmas. Isso necessita práxis. As pessoas não irão desistir do conforto (ou desconforto) do status quo sem algumas ideias do porque deveriam fazê-lo.

De várias formas, os anarquistas apresentam visões reconstrutivas que mapeiam o caminho em direção a uma sociedade além da hierarquia. Visionar este mundo é, claro, parte da prefiguração e da auto-organização. O Anarquismo, ao contrário de outras filosofias políticas, retém um impulso utópico. O conceito de utopia dentro do Anarquismo não é alguma terra muito distante, uma terra do nunca; nem é uma forma de ignorar as necessidades e desejos materiais. Ao invés, é precisamente uma forma de levar em conta a totalidade das necessidades e desejos materiais e não materiais – não simplesmente pão e manteiga, mas pão, manteiga e também rosas – e imaginar formas nas quais todos possam satisfazê-las. O Anarquismo olha para o passado, quando as pessoas viviam formas comunais e auto-geridas de organização; ele vê potencialidades no presente; e ele sustenta uma confiança clara de que os humanos podem fazer sempre melhor no futuro. A sensibilidade utópica do anarquismo é esta curiosa fé de que a humanidade pode não somente demandar o impossível mas também realizá-lo. É um salto de fé, mas aterrada e vislumbrada a partir de experiências atuais, grandes e pequenas, nas quais as pessoas presenteiam caminhos de vida igualitários uns aos outros através da sua criação coletiva.

O Anarquismo não é somente um ideal; não é apenas um experimento difícil. Nem um diagrama ou um plano rígido. Sua instância reconstrutiva sonha formas de incorporar suas éticas e então tenta implementá-las. Muitas práticas atualmente existentes, anarquistas ou não, ilustram que relações sociais horizontais já são possíveis – e funcionam melhor que relações verticais. Anarquistas instalam produções culturais open source e faça você mesmo para exemplificar ideias imaginativas que inspirem outros a agir. Eles documentam a história das pessoas em pôsteres; eles pintam janelas para outros mundos em muros públicos ou os publicam em zines; eles usam música indie e mídias independentes para disseminar aspirações libertárias. Anarquistas criam espaços para celebrar formas alternativas de ser e organizar, de carnavais contra o capitalismo a “mercados realmente, realmente livres”, até feiras anarquistas e infoshops. Eles desenvolvem contra-instituições como escolas auto-dirigidas e espaços de trabalho auto-gerenciados. Nestes e em outros caminhos, anarquistas experimentam e linkam inovações e indicam as potencialidades para uma transformação social mais ampla.

Políticas Prefigurativas

Política prefigurativa: a ideia de que deve haver uma relação ética consistente entre os meios e os fins. Meios e fins não são a mesma coisa, mas anarquistas utilizam meios que apontam na direção de seus fins. Eles escolhem ações ou projetos baseados em como estes se encaixam em objetivos de longo prazo. Anarquistas participam no presente de formas que eles gostariam de participar, muito mais completamente e de forma muito mais auto-determinada, no futuro – e encorajam outros a fazê-lo da mesma forma. A política prefigurativa então alinha os valores de alguém à sua prática e às práticas da nova sociedade antes que ela esteja completamente em seu lugar.

Ainda, o “fim” no Anarquismo não é uma destinação final. Não é nem predeterminada nem um local único, singular, nem uma revolução após a qual tudo se tornará e permanecerá perfeito. Fins, para anarquistas, são uma constelação de éticas, testadas agora e sempre, que oferecem grandes quantidades de vida livre, mesmo que as pessoas continuem preenchendo o que a liberdade se parece na prática. Os meios envolvem a jornada em si, que também é uma parte íntima e interconectada com os fins. A relação eticamente consistente entre os meios e os fins é, simplesmente, incorporada no processo em si mesmo, e continuamente melhorar as formas de chegar aqui até ali é o que é revolucionário.

Revolução se torna tanto uma noção grandiosa – aquele sopro de esperança de fundamentalmente refazer o mundo – e algo iminentemente “pegável” que nós podemos tentar aqui e agora. O Anarquismo pede às pessoas que “construam a estrada à medida em que viajam”. É no processo de construir novos mundos que a transformação acontece, em como as pessoas se organizam para fazer seu caminho em direção a algo apreciavelmente melhor.

Revolução carrega em si evolução. Anarquistas, como todo mundo mais, precisam se tornar pessoas capazes de sustentar uma nova sociedade. A organização e as instituições de uma nova sociedade necessitam se desenvolver em formas que são capazes de estruturar novas relações sociais. Anarquistas infundem tudo o que fazem com gestos, algumas vezes extravagantes, do que irá substituir, entre outras coisas, o capitalismo e o estado, heteronormatividade e ditadura do mais capaz. Tais atos prefiguram, ou mostram a possibilidade, antecipadamente, de organizações e relações sociais igualitárias. Como tal, elas demonstram e corporificam o poder da imaginação, participação substantiva, e o valor de todas as coisas vivas – todas as quais, no seu máximo coletivamente auto-geradas, poderão realmente quebrar o feitiço dos arranjos de poder de cima para baixo.

Formas de Auto-organização

As visões reconstrutivas do Anarquismo praticam como reorganizar a sociedade. Eles põe a ação direta em Ação!

A ação direta toma uma de duas formas. Sua forma “positiva” ou proativa é o poder de criar. As pessoas fazem coisas agora da forma que elas querem vê-las feitas, de forma crescente, no futuro, sem representantes ou formas verticais de poder. Elas ignoram “altos” poderes, e flexionam seus próprios músculos coletivos para fazer e implementar decisões sobre suas vidas. A forma “negativa” ou reativa de ação direta, o poder de resistir, usa meios diretos de desafiar as coisas ruins – por exemplo, uma greve geral para parar uma guerra.

Ambos tipos de ação direta são úteis, é claro. Eles caminham de mãos dadas. Estudantes, professores e funcionários de uma universidade podem por exemplo ocupar um prédio para protestar contra cortes orçamentários e ao mesmo tempo utilizar processos democráticos diretos para auto-determinar seu curso de ação (que pode então direcionar os ocupantes a querer uma forma totalmente diferente de educação). Um projeto de Vigilância da Polícia pode usar tecnologias de comunicação gratuitas e abertas, como uma rádio livre, como uma forma para as pessoas reportarem diariamente sobre abusos policiais, e ao mesmo tempo desenvolver uma mídia tocada pela comunidade. Mas é quando as pessoas crescentemente tomam conta e se colocam como co-responsáveis, instituindo e participando de organizações não hierárquicas, que elas começam a ter poder de redesenhar a sociedade, ao invés de simplesmente o “poder” de reagir contra aquelas forças que em última instância tem poder sobre elas.

Fechamos o círculo para a concepção do Anarquismo como aspirando um direção a indivíduos livres dentro de uma sociedade livre. Estamos totalmente no campo da auto-determinação, auto-gestão, e auto-governo, como realidades vivas, mesmo que em formas embriônicas. A única forma de construir estas novas relações e instituições sociais é fundá-las e alimentá-las nós mesmos. Anarquistas estão sempre envolvidos em todas formas de projetos auto-organizados, tanto operando sob a superfície para confeccionar novas bases para uma vida social e ecológica quanto na superfície, em experimentos visivelmente relevantes que refletem noções de senso comum sobre como todos poderiam viver suas vidas em conjunto, bem como as várias formas que já o fazemos.

Muitos projetos anarquistas acontecem dentro de círculos anarquistas ou são direcionados a outros anarquistas. isso permite aos anarquistas experimentarem com formas de organização entre pessoas relativamente afins que já estão comprometidas com elas. Isso facilita o desenvolvimento da muito necessária infraestrutura auto-gerenciada para desenvolver ideias, construir habilidades e mentorar futuras gerações de anarquistas.

O buraco é bem mais embaixo quando buscamos integrar grupos de pessoas e comunidades não afins, que não estão nesta “pegada” de produzir um mundo melhor para todos, mas ainda presos ao conteúdo, às métricas e métodos capitalistas de geração de escassez, acúmulo, competição, consumo, desenvolvimento através da expansão e exploração dos meios naturais e do trabalho humano a partir de relações hierárquicas de dominação. Nestes casos, a incompatibilidade é clara e não haverá harmonia de um eventual relacionamento. Se pode escolher um de dois caminhos: enfrentamento ou desaparecimento.

Particularmente, acredito que o enfrentamente consome energias enormes que poderiam estar sendo concentradas na criação das estruturas, instâncias e vivências que desejamos multiplicar. Portanto, ser hábil em praticar o desaparecimento da cena do conflito (não confundir com negação ou fuga), é uma habilidade interessante nestes dias de transição.

Os anarquistas não tem todas as respostas, nem buscam ter o monopólio das mesmas. Eles apenas fazem boas perguntas e estimulam que melhores respostas sejam dadas. Não querem um “mundo anarquista”, ao invés disso, um mundo igualitário no qual cada um aprenda a pensar e agir por si mesmo levando em conta a coletividade. Anarquistas trazem esta sensibilidade bem como suas capacidades de auto-governança às lutas ao redor do mundo, desde cidades-tenda para aqueles que não tem casas até cooperativas organizadas por grupos de terras comunitárias para aqueles que querem controlar sua moradia.

A auto-organização é a chave para garantir a posse não exclusiva – ou melhor, a posse em comum – da liberdade. Como o Anarquismo consistentemente afirma, a liberdade só é possível quando todas as pessoas compartilham a habilidade de determinar e moldar relações sociais e organizações sociais. A única forma de criar formas de justiça tão amplas é garantir que todos tenham uma porção igual de poder, que nós não apenas discutamos, debatamos e dialoguemos acerca de qual tipo de socidade e vida cotidiana queremos, mas também resolvamos os problemas, implementemos, avaliemos e revisitemos aquelas decisões sobre a totalidade da vida. Como essas formas de auto-organização irão se parecer na prática é justamente o escopo do Anarquismo; é o que fazemos – em essência, pesquisa e desenvolvimento voluntário e, desenhando a partir de boas ideias tanto de dentro como de fora do meio social anarquista. O Anarquismo pega emprestado de possibilidades aparentemente impossíveis do passado e do presente. Ele então presenteia estas possibilidades a todos, oferecendo esperança ao apontar em direção a um futuro crescentemente liberador.

O laboratório do Anarquismo é a totalidade da vida. Ele explora o que a auto-determinação iria parecer em relação ao sexo, sexualidade e orientação sexual; ele articula estratégias e contravisões para oprimidos, colonizados ou ocupados ao redor do mundo. Ele testa novas formas de auto-gerenciamento do espaço de trabalho, enquanto reimagina a ideia de “trabalho” em si mesma, em termos de como as pessoas materialmente produzem e distribuem tudo desde comida, a vestimentas, a energia e a tecnologias de comunicação. Os anarquistas auto-organizam o que hoje é visto como “serviços”, de educação a saúde mental e física, a cafés e bibliotecas, a operações de resgate. Eles disponibilizam novos mecanismos de auto-governança, de coletivos e grupos de afinidades, a assembléias de vizinhança, conselhos e confederações – todas inclinadas para a experimentação com métodos de tomada de decisão diretamente democrática e por consenso. Nestas formas e em incontáveis outras, anarquistas dão significado tangível a uma forma de organização social cuja premissa é a Liberdade.

 

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

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Adiante!

 

“O objetivo do Anarquismo é estimular forças que levem a sociedade em uma direção libertária”
Sam Dolgoff, A relevância do Anarquismo para uma sociedade moderna, 1970

Durante o período comunista e fascista, as forças históricas levaram a sociedade a uma direção mortífera. O Anarquismo não desapareceu neste tempo, mas suas fileiras foram dizimadas. Figuras-chave foram mortas, como Gustav Landauer (1919) e Erich Mühsam (1934), Ricardo Flores Magón (1922) e Alexander Berkmann (1936).

Os anarquistas estavam cada vez mais isolados, e seu último encontro foi durante o funeral de Kropotkin, em 1921. Milhares de anarquistas pelo mundo foram encarcerados, exilados ou assassinados. Como consequência, foi como se a esquerda anti-autoritária tivesse pulado uma ou duas gerações.

Nesse interim: fascismo, bolchevismo e maoísmo; EUA desponta como uma superpotência global; nascimento das instituições financeiras multinacionais com o “avanço” do capitalismo; a guerra fria e a ameaça nuclear… Estes e outros fenômenos emergentes dramaticamente expandiram as fontes de dominação que qualquer plataforma libertária necessitava abordar.

antifascistaA partir dos anos 60, o Anarquismo começou a se redesenhar para o século XX, obtendo seus insights de outros movimentos afins, como os movimentos radicais de liberação feminina e gay, os Autonomen na Alemanha e os Zapatistas no México. Inspirou, de forma mais ou menos explícita, desde o provos de Amsterdan a novas formas de ecologia radical como o Movimento Antinuclear e o Earth First até a Revolta das Tarifas britânica.

No final do século XX, a Batalha de Seattle em 1999 foi, para o Anarquismo, apenas mais uma manifestação de uma cadeia de reinvenções de sua própria tradição. O que Seattle efetivamente fez foi colocar no foco esse Anarquismo revigorado, seja através de imagens de “black blocs” anarquistas jogando tijolos através de janelas da Starbucks ou explicações sobre como grupos de afinidade e o modelo de “spokescouncli” funcionavam na prática. Mais importante: deu visibilidade e voz ao Anarquismo em geral, ajudando a recapitular a imaginação política, juntamente com uma série de outros “movimentos vindos de baixo” ao redor do mundo.

Entretanto o Anarquismo não está imune à crescente fragmentação e  imediatismo que caracterizam a sociedade capitalista contemporânea. Ele tb e atingido pelo fenômeno que critica mesmo os anarquistas defendendo uma comunidade de comunidades, eles são, como a maior parte das pessoas hoje, alienados de qualquer senso de lugar e uns dos outros. Entretanto, permanece um profundo senso de reconhecimento entre anarquistas, baseado no compartilhamento de uma série de valores distintivos, que por sua vez estruturam suas vidas e projetos.

 

Filosofia da liberdade

 

“Possibilidade não é um luxo, é tão crucial como pão”
Judith Butler, “Undoing Gender”, 2004

Uma instância revolucionária

auto2O Anarquismo é plenamente radical no verdadeiro senso da palavra: chegar até a raiz ou origem dos fenômenos, e daí realizar mudanças dramáticas nas condições existentes, sempre que necessário. O Anarquismo aspira fundamentalmente transformar a sociedade em direção a noções expansivas de liberdade individual e social. Muitas vezes, na prática, isso significa engajar-se em várias “reformas” ou melhoramentos, mas naqueles que ao mesmo tempo tentam explicitamente articular uma política revolucionária.

Essa “reforma-apontando-para-a-revolução” é certamente difícil de manejar, já que o capitalismo se organiza de forma a recuperar tudo que aparece à sua frente.

Apesar das dificuldades, os anarquistas nunca defendem uma atitude puramente reformista. Eles dão o seu melhor para nunca participar da reforma como um fim em si mesma, ou trazer melhoramentos que também tornem a ordem social atual parecer mais atrativa. Eles simultaneamente direcionam seus esforços organizativos a “restringir as atividades do Estado e bloquear sua influência em todos departamentos da vida social sempre que vejam uma oportunidade”.

cap9Capitalismo e Estado possuem uma lógica interna separada mas frequentemente interrelacionada que consolida monopólio para poucos, sempre às custas de muitos. Isso demanda que cada sistema precisa continuamente expandir e marcar seu domínio. Para sobreviver, eles devem fazer parecer normal que a maioria das pessoas estejam materialmente empobrecidas e desempoderadas como atores econômicos e socialmente empobrecidas e desempoderadas como atores políticos.

O mundo que a maior parte da humanidade produz é, como resultado, negado à vasta maioria, e uma quantidade relativamente pequena consegue tomar decisões sobre todos aspectos da vida. Mover além do capitalismo e dos estados significa nada menos do que virar o mundo de cabeça para baixo, quebrando todos os monopólios e reconstituindo tudo em comum – de instituições à ética da vida cotidiana.

Assim, por exemplo, enquanto muitos dos movimentos de justiça climática e global focam nas corporações como a chave, os anarquistas vêem, estas entidades apenas como peças do capitalismo, e uma peça que, se removida, não destruiria o capitalismo, por pior que sejam estas corporações. Pode existir capitalismo sem corporações. A essência do capitalismo – garantir que a sociedade seja forjada ao redor de relações sociais compulsórias ao longo de inequidades de poder e condições materiais – permaneceria em seu lugar. E, devido à lógica “crescer ou morrer” do capitalismo, o capitalismo de pequena escala por definição se desenvolveria em larga escala novamente.

O capitalismo localizado, como nossas estruturas informacionais e em rede capitalista indicam, pode ser uma forma de esconder uma crescente concentração de controle social e injustiça. O capitalismo em si, em sua totalidade, e justamente pelo fato de buscar a totalidade, é o problema essencial.

As estruturas econômicas e valores do capitalismo passíveis de ataque, e que o marcam como um sistema são: corporações, bancos, propriedade privada, lucro, patrões, trabalho assalariado, alienação e comodificação, para citar algumas.

O capitalismo, por sinal, com frequência produz excessos em coisas como comida e habitação. Mas a não ser que este excesso possa ser trocado, ele é jogado fora ou permanecer vazio. Enquanto isso, muitas pessoas estão famintas ou dormindo nas ruas.  Tornar este excesso disponível para uso e não para troca – reclamando como algo COMUM – revela a habilidade das pessoas em se auto-organizar para alcançar suas necessidades. Também mostra que ser completamente humano encolve compartilhar o excedente livremente e tomar cuidado de todos, não apenas daqueles que conseguem se alimentar ou alojar por si próprios.

anarc1“Tudo para todos e o que mais houver, grátis”

“Ocupe tudo”

“Use ou perca” – “Direito à propriedade ou direito ao uso?”

Usufruto: Nossa capacidade de usar e aproveitar a moradia como um bem social, em contraposição ao valor de troca do capitalismo.

Sobre o Estado, não é uma questão de tentar tornar o Estado mais bondoso, mais multicultural, mais benigno, ou seguir a pé da letra sua própria lei. A própria lógica do Estado assegura que poucas pessoas serão mais aptas do que todos a determinar “a vida, a liberdade e a busca da felicidade”.

Não é apenas o fato de que o Estado tem o monopólio da violência, mas também como ele compele o povo a abrir mão de seu poder – com armas, urnas ou pacificação através de uma participação já circunscrita – ele sempre está engajado em uma variedade de formas de controle social e engenharia social.

A maquinaria estatal, em essência, é sobre um pequeno corpo de pessoas legislando, administrando e criando políticas sociais. Em seu modo de atuar, ele também sustenta outros tipos de dominação como o racismo institucionalizado, a heteronormatividade.

Cada vez mais, o “Estado” está fazendo isso como parte de uma estrutura em rede de estados colaborando em blocos ou em instituições globais. Assim, menos e menos pessoas tem chance de determinar políticas que vão desde estados de guerra, a saúde da sociedade e a imigração. Mesmo a noção de democracia representativa neste regime global é quase anacrônica, dadas as camadas de governança não representativa que agora trabalham lado a lado com ONGs e corpos financeiros multinacionais igualmente não democráticos.

O ponto aqui é que os anarquistas concordam com a necessidade de um mundo sem capital e estados, precisamente de forma a permitir que todos façam o melhor de suas vidas, liberdades e felicidade – de ser capaz de continuamente definir bem como tomar parte na qualidade destas categorias.

anarc9Os anarquistas acreditam que juntas, as pessoas provavelmente visionam, deliberam sobre e vivem sobre uma organização social mais criativa, multidimensional.

Aqui, mais uma vez, os anarquistas oferecem uma prática revolucionária que envolve tanto condições atuais e aponta além delas. Um projeto que envolve providenciar alimentos excedentes para aqueles com fome também pode incluir uma assembléia de democracia direta, na qual todos envolvidos comecem a tomar decisões coletivas. Quando um lote vazio é colocado à venda para a maior oferta para um desenvolvimento de luxo, os anarquistas realizam uma chamada para que ele seja transformado em um parque, então se juntam com os vizinhos, não apenas para embelezar o espaço mas também para experenciar o poder político em reclamá-lo.

Mesmo no contexto de uma demonstração de massa orientada para a reforma, os anarquistas infundem sua perspectiva revolucionária – por exemplo, coordenando um dia de ação global não via uma organização central mas usando uma confederação de grupos e movimentos autônomos.

Os anarquistas mantém que o Estado e o Capitalismo devem desaparecer pois ambos mantém poder sobre a maioria do mundo humano e não-humano. Em seu coração, a filosofia política é sobre poder: quem o detém, o que faz com ele, e em direção a que fins. O Anarquismo, mais claramente do que qualquer outra filosofia política, responde que o poder deve ser feito horizontal, deve ser mantido em comum.

Hierarquia e Dominação em Geral

Essa concentração em arranjos de poder de baixo para cima levou o Anarquismo a se opor não somente ao Capitalismo e ao Estado mas também à hierarquia e dominação em geral. Nada mais natural, neste contexto, opor-se a outras instituições na qual a dominação e a hierarquia são a tônica, como o Exército, a Igreja e a Escola, por exemplo.

anarc1-4O Anarquismo, diferentemente do Marxismo, tira o foco dos problemas como supraestruturalmente sendo de ordem econômica, para passar a uma ordem anterior ao surgimento do Capitalismo e do Estado, buscando as raízes do surgimento da dominação, empurrando o Anarquismo a um libertarianismo horizontal mais abrangente ainda. Em seu livro A Ecologia da Liberdade (The Ecology of Freedom, 1982), Murray Bookchin explora a emergência da hierarquia pelos milênios e sua intricada relação com o legado da liberdade, repensando a forma de ser do Anarquismo e refletindo sobre todo tipo de experimentações, projetos e relacionamentos não hierárquicos, anarquistas ou não, da contracultura, da Nova Esquerda, dos movimentos autonomistas dos anos 60 em diante, todos eles ajudando a transformar o entendimento do Anarquismo acerca dele mesmo.

Essa mudança moderna de perspectiva significa que, mais do que nunca, o Anarquismo está interrogando a si mesmo e a todos acerca de quais formas nas quais a hierarquia e a dominação se manifestam ou desenvolvem, sob novos contextos históricos. Isso se traduziu em uma percepção profunda e sincera de que, mesmo que o capitalismo e o estado fossem abolidos, muitas formas de hierarquias ainda poderiam existir; e que ao longo do capitalismo e do estado, muitos outros fenômenos causam grave sofrimento.

E aqui aparece a importância das instâncias revolucionárias anarquistas no contexto histórico atual: enquanto os anarquistas defendem a abolição do trabalho assalariado, o contexto capitalista atual acaba por produzir isso à medida em que postos humanos são substituídos por máquinas; o que resta, entretanto, é que o bem-estar e a riqueza advindos da substituição humana por uma máquina acaba sendo centralizado nas mãos de poucos, ao invés de distribuído por muitos. As mesmas tecnologias desenvolvidas para realizar controle de estoques no mercado capitalista, podem ser subvertidas, modificadas e produzir sistemas de compartilhamento não alienantes de bens, serviços e tempo. Perceber esses diferentes lados na interação entre o Capital e o Comum-Livre é um dos papeis mais importantes do Anarquismo. E ainda vamos além.
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Existem possibilidades no presente, fissuras na dominação que apontam em direção à liberdade. A crescente incapacidade do Estado em proteger seus cidadãos de praticamente tudo – desde doença até violência – mina a própria justificativa da sua existência, enquanto também cria uma abertura para inovações federadas de base acerca de como garantir plenitude material e comunidades mais sadias e seguras sem o Estado. E, mais profundamente ainda: à medida em quem os anarquistas testam suas ideias, novas formas de liberdade descobrem camadas ainda mais escondidas de dominação.

A hierarquia e a dominação sempre servem para evitar um mundo consensual e igualitário. Os anarquistas lutam para desmantelar formas de relações e organizações sociais que permitam a algumas pessoas exercer dominância sobre outras pessoas ou coisas. Eles contrastam o uso do poder para ganhar algo de outros, quer seja dinheiro, status ou privilégios, com o uso do poder para coletivamente alcançar desenvolvimento individual e social, respeito mútuo e o alcance das necessidades e desejos de todos.

O Anarquismo se posiciona dizendo que toda instância de poder vertical ou centralizado deve ser reconstruida para permitir um poder coletivo horizontal e descentralizado.

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

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O Anarquismo e suas Aspirações

Os apontamentos a seguir foram retirados livremente do livro Anarchism and It’s Aspirations de Cindy Milstein e estão entremeados por reflexões e comentários meus, reflexões essas que surgiram durante a leitura do mesmo, e inspiradas em leituras prévias da literatura libertária e da minha leitura particular do mundo em que vivemos. É muito importante frisar que, embora os comentários estejam realmente misturados com o texto original da autora, a grande maioria do conteúdo abaixo é de autoria da Cindy, e recomendo muito fortemente a leitura do texto original em inglês, publicado pela Editora AK Press e pelo Institute for Anarchist Studies.

Os apontamentos foram fragmentados em partes para facilitar a leitura e serão publicados semanalmente a partir de hoje, primeiro de janeiro de 2013, sempre às terças-feiras. Desejo uma ótima leitura e, se a leitura te “pegar de jeito”, não deixe de entrar em contato. Temos muito o que prosear e conspirar!

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O objetivo destes escritos é contribuir com a construção de um melhor entendimento do Anarquismo, construir um melhor Anarquismo e encorajar novos anarquistas bem como o surgimento destes. Espera-se que estes apontamentos acendam um debate sobre o que o Anarquismo poderia ser, em primeiro lugar porque queremos que sejamos efetivos – que vençamos – e isso envolve um diálogo crítico, construtivo e integral para nossa prática prefigurativa.

Com este artigo, quero estender uma mão compassiva e solicitar que você, quer seja velho ou novo no Anarquismo, fique por perto e ajude a acelerar os processos pelos quais estamos lutando.

Eu quero todos nós lutando pelo que há de melhor no Anarquismo, não somente por nós mesmos mas de forma a construir uma sociedade livre, com indivíduos livres que o Anarquismo tão generosa e amorosamente luta para alcançar para todos.

Sim, o mundo está incrivelmente bagunçado; ao invés de se retirar, entretanto, é imperativo que avancemos em direção a uma “Comunidade de comunidades” igualitária.

Espero que ao final do livro tenhamos conseguido responder à pergunta: “Como é a sociedade que queremos?

E, inspirados pelo bom, verdadeiro e belo que o Anarquismo objetiva, contagiá-lo a feliz e ainda assim diligentemente abraçar – ou continuar a fazê-lo com renovado vigor – o espírito libertário do Anarquismo.

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A primeira década do século XXI foi muito significativa para o Anarquismo, providenciando uma série de eventos (e exemplos) que começaram ainda no final do século passado (Chiapas, México, Exército Zapatista de Libertação Nacional, 1994) e a Batalha de Seattle, 1999) e seguiram-se com os eventos na Argentina (2001/2002), Genova, Oaxaca, Grécia, Primavera Árabe, Occupy Wall Street, 15M, …

Estes acontecimentos somados levaram a um “inchaço” no número de pessoas que se autodenominam anarquistas; isso, por sua vez, levou ao florescimento de uma “infraestrutura anarquista”, desde um aumento dramático de cenários sociais e infoshops até um surto de projetos tocados coletivamente para suprir necessidades como suporte legal, comida e arte.

Foram desenvolvidas redes globais informais porém articuladas de troca e solidariedade, facilitadas por tudo desde usos compartilhados e seguros de tecnologias de comunicação e mídia independentes até redes de apoio mútuo nos mais diversos campos do conhecimento a atuação humanos.

Juntamente com cabeças afins, nos engajamos em fóruns de política cara-a-cara que nos forneceram uma nova imaginação radical através de numerosos dias de ação, consultas e convergências, e movimentos horizontais.

A primeira parte destes apontamentos, o Capítulo 1, reflete nosso otimismo de que a constelação anarquista de éticas, juntamente com suas práticas dinâmicas, pode nos unir e inspirar bem como a muitos outros, para o trabalho pesado que nos espera de forjar um mundo de baixo para cima.

“Mesmo quando eu amo o que faço, eu odeio o capitalismo”

Não é como nos chamamos uns aos outros – anarquistas, socialistas, comunistas – que conta, mas como nos comportamos

E, refletindo sobre a forma que os anarquistas escolhem agir, parece que existe algo de especial nela, apesar de todas as chances contra deste momento histórico: com empatia, tangivelmente dando de nós mesmos e fazendo-o nós mesmos, em direção a uma forma de organização social na qual será rotina agir de forma mutualista.

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Uma vez perguntaram a Ashanti Alston, anarquista dos Panteras Negras, como ele aguentou ficar 12 anos na cadeia, e ele respondeu, olhos brilhantes: “Foi o período mais cheio de esperança da minha vida, porque todos os dias nós estávamos esquematizando sobre como fugir da prisão”.

Ninguém deveria viver nas celas do Capitalismo, do Estado, ou de outra forma de dominação ou opressão, mas já que vivemos, as aspirações anarquistas oferecem uma chave para acharmos nossa saída.

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Capítulo 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

“Por espírito anarquista eu quero dizer daquele sentimento humano profundo, que busca o bem de todos, solidariedade e amor entre as pessoas, o que não é exclusivamente uma característica dos autodeclarados anarquistas, mas inspira todas as pessoas que tem corações generosos e uma mente aberta”
Errico Malatesta, Umanita Nova, 13/04/1922

No seu centro, o Anarquismo é realmente um espírito – um que grita contra tudo que está errado com a sociedade atual, e claramente proclama tudo que poderia estar certo sob formas alternativas de organização social.

O que é o Anarquismo exatamente?

Muitas definições já foram feitas desde o surgimento da palavra como uma filosofia política distinta dentro da tradição revolucionária. Vamos tentar introduzi-lo com a vantagem de um ponto-de-vista do início do século XXI.

Em primeiro lugar, precisamos concordar que nossa humanidade está profundamente machucada pelo mundo alienado e controlado no qual habitamos. O Anarquismo defende que as pessoas seriam muito mais humanas sob relações e arranjos sociais não hierárquicos. A seguir, precisamos nos concentrar nas Éticas – os valores pertinentes a como os humanos conduzem a si mesmos – que tornam o Anarquismo uma sensibilidade política distinta. O Anarquismo serve como uma filosofia da liberdade, como uma consciência viva de que as pessoas e suas comunidades podem ser sempre melhores.

Em uma só sentença: o Anarquismo pode ser definido como uma busca/luta em direção a uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

Significado do “A”

O “A” representa a antiga palavra grega Anarkha – que combina a raiz an(a) – “sem” e arkh(os) – “governante, autoridade” – significando a ausência de autoridade.

Mais contemporaneamente, e de forma mais acurada, ela represetna tanto a ausência de dominação (controle de alguém sobre outro) e hierarquia (relações ranqueadas de poder de dominação e subordinação). O círculo pode ser considerado um “O”, representando “ordem” ou, melhor ainda, “organização”; lembrando da seminal definição de Pierre-Joseph Proudhon em A Propriedade é um Roubo: “Da mesma forma que o homem busca justiça na igualdade, a sociedade busca a ordem na Anarquia.”

O “A” simboliza o Anarquismo como um duplo processo: a abolição da dominação e formas hierárquicas de organização social – ou relações socieis “poder sobre” – e sua substituição por versões horizontais – ou “poder juntos e em comum” – novamente, uma sociedade livre composta por indivíduos livres.

O Anarquismo é uma síntese do melhor do liberalismo e o melhor do comunismo, elevado e transformado pelo melhor das tradições de esquerda libertária que trabalham em direção a uma sociedade igualitária, voluntária e não hierárquica.

O projeto do liberalismo e o seu sentido mais amplo é garantir a liberdade pessoal. O projeto máximo do comunismo é garantir o bem comum. Um busca um indivíduo que pode viver uma vida emancipada e o outro busca uma comunidade estruturada ao longo de linhas coletivistas. Ambas são noções de valor. Infelizmente, a liberdade nunca pode ser alcançada desta maneira excludente: através do indivíduo OU da sociedade. Os dos necessitam necessariamente entrar em conflito, quase instantaneamente. A grande sacada do Anarquismo foi combinar o indivíduo e a sociedade em uma única visão política: ao mesmo tempo, eliminou o Estado e a propriedade como os pilares de suporte, baseando-se em seu lugar na auto-organização e o apoio mútuo.

O Anarquismo entende que qualquer forma de organização social, especialmente uma que busque uma erradicação completa da dominação, que se basear na premissa tanto da liberdade individual quanto coletiva – ninguém é livre a não ser que todos sejam livres, e todos só podem ser livres se cada pessoa puder individuar ou atualizar a si mesmo da forma mais ampla possível.

O Anarquismo também reconheceu, mesmo que intuitivamente, que tal tarefa é tanto um ato de balanço constante e “do que é feita” a vida real. A liberdade de uma pessoa necessariamente infringe a de outra, ou mesmo o bem de todos. Nenhum bem comum pode atender as necessidades e desejos de todo mundo. Isso não quer dizer lavar as mãos e escolher pelo caminho ou do liberalismo ou do comunismo – privilegiando um lado da equação, de forma artificial – na esperança de resolver esta tensão em andamento.

Desde o início, o Anarquismo perguntou a muito mais difícil mas em última instância pragmática questão: “Levando em conta estas “colisões” sociedade x indivíduo como parte da condição humana, como podem as pessoas coletivamente auto-determinar suas vidas para se tornarem quem elas querem ser e ao mesmo tempo criar comunidades que são tudo o que elas poderiam ser também?”

O Anarquismo entendeu que esta tensão é positiva, como uma parte criativa e inerente à existência humana. Ele destaca que as pessoas não são todas iguais, nem precisam ser, nem necessitam, querem ou desejam as mesmas coisas.

No seu melhor, a aspiração anarquista básica por uma sociedade livre composta de indivíduos livres dá transparência ao que deve ser uma dissonância harmônica e produtiva: encontrar caminhos para coexistir e nos desenvolver em nossas diferenças.

Anarquistas criam processos que são humanos e substancialmente participativos. São sonestos sobre o fato de que sempre haverá mal-estar entre a liberdade individual e social. Garantem que será uma luta contínua encontrar o equilíbrio ideal. Esta luta é justamente aquela na qual o Anarquismo se localiza, aparece, acontece.

Ele acontece, hoje em dia, em situações nas quais nem nos damos conta. Em projetos de pequena escala como cooperativas de cicloativistas, escolas livres – situações em que as pessoas coletivamente fazem decisões cara-a-cara sobre assuntos grandes ou mundanos.

Isso não é algo que a maior parte das pessoas na maioria das partes do mundo é encorajada a ensinar (ou aprender); pois isto contém o kernel, o código-fonte, o coração do que é necessário para destruir o atual sistema de arranjos sociais verticais. Desta forma, não somos nem particularmente bons nem eficientes em processos democráticos diretos. Mecanismos de tomada de decisão em conselhos são trabalho duro. Eles levantam questõs difíceis, como por exemplo “como lidar com conflito de formas não punitivas”. Mas através deles, as pessoas se “escolarizam” no que pode ser a base para a auto-governança coletiva, para redistribuir poder a todos. Quando funciona bem, temos um profundo senso dos tipos de processos ou acordos que podemos fazer e manter uns com os outros.

Ocupa BarcelonaNo micronível e em outros muito maiores, o anarquismo forma “a estrutura da nova sociedade dentro da casca da velha”, como o preâmbulo da constituição mundial dos trabalhadores industriais afirma. De forma ainda mais crucial, ele auto-determina a estrutura do novo a partir dos espaços de possibilidade dentro do velho.

O Anarquismo precisa permanecer dinâmico se ele realmente quiser desmascarar novas formas de dominação e substitui-las por novas formas de liberdade, precisamente devido a sempre presente tensão entre liberdade individual e coletiva.

Auto-organização necessita a participação de todos, o que requer estar sempre aberto a novas questões e ideias.

Quando as pessoas são introduzidas ao anarquismo hoje, esta abertura combinada com a propensão cultural a esquecer o passado, pode fazer com que pareça uma invenção recente – sem uma tradição elástica, preenchida com debates, lições e experimentos, para construir sobre. Pior ainda, pode parecer uma prática política do tipo “tudo vale” – libertino sem o libertário – sem consideração por como os atos de uma pessoa impactam outra pessoa (ou pessoas) ou mesmo a comunidade.

Precisamos estudar a história anarquista para evitar repetir os erros, mas também para saber que não estamos sozinhos no que tem sido e vai ser a pedregosa e cheia de desvios “via para a utopia”.

(continua…)

Outras Partes:

Parte 1 – O Anarquismo e suas Aspirações

Parte 2 – Looking Backward

Parte 3 – Adiante! e Filosofia da Liberdade

Parte 4 – A Vida como um Todo

Parte 5 – O Conteúdo Ético

Parte 6 – Orientação Ecológica

Parte 7 – Acenando em direção à Utopia

Parte 8 – A Promessa Anarquista para uma Resistência Anticapitalista

Parte 9 Democracia é DIreta (em 12/10)

Parte 10 – Retomada das Cidades: do Protesto ao Poder Popular (em 19/10)

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Abaixo, segue minha apresentação no Social Capital World Forum, 2012, um evento marcante, com pessoas muito especiais que pensam o mundo de uma forma não convencional, voltada para a produção e uso de Capital Social, muito mais do que capital privado e sistema monetário.

Acompanhe e, se o assunto lhe interessar, entre em contato!

Apresentação em vídeo (a partir de 28:35)

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