Em busca do fim da busca
Nonsense

Estamos sempre em busca do fim da busca

E a cobra teima em morder seu próprio rabo. Oxímoro. Oroboro.

Da Wikipedia: 
Oxímoro, oximóron ou paradoxismo (do grego ὀξύμωρον, composto de ὀξύς, “agudo, aguçado” e μωρός, “estúpido”) é uma figura de linguagem que consiste em relacionar numa mesma expressão ou locução palavras que exprimem conceitos contrários, tais como festina lente (“apressa-te lentamente”), “lúcida loucura”, “silêncio eloquente” etc. Trata-se duma figura da retórica clássica.

Dado que o sentido literal de um oxímoro (por exemplo, um instante eterno) é absurdo, força-se o leitor a procurar um sentido metafórico (neste caso, pela intensidade do vivido durante esse instante, faz perder o sentido do tempo). O recurso a esta figura retórica é muito frequente na poesia mística e na poesia amorosa.

Exemplos

  • silêncio ensurdecedor
  • inocente culpa
  • gelo fervente
  • declaração tácita
  • ilustre desconhecido
  • guerra pacífica
  • morto-vivo
  • lentamente rápido
  • tristemente alegre
  • inimigo amistoso
  • cooperado vagabundo
  • catedrático néscio
  • mentiroso honesto
  • manso intenso
  • anarco capitalismo

Este soneto de Luís de Camões é construído com oxímoros:

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Estes trechos de Canibal Vegetariano Devora Planta Carnívora, dos Engenheiros do Hawaii, são construídos com oxímoros:

(…)

Clichês inéditos Déjà vu nunca visto Esquerda light Diet indigestão Jagunço hi-tech Perua low-profile Cabelo vermelho-Ferrari Jóia rara para a multidão (…) Overdose homeopática Ode ao que se fode Humildade (com “H” maiúsculo e dourado) Enfant terrible veterano Calendário eterno Fuso anti-horário Luz difusa Confusa explicação Tara relax Safe sex Disneylândia dândi (a grande guerra) Pantanal new age Bacanal cristão Fanatismo indeciso Fanática indecisão Em resumo:

Etcétera e tal…

Ainda da Wikipedia:

OuroborosOuroboros (ou oroboro ou ainda uróboro, do grego Οὐροβόρος: ‘que consome a cauda’; do grego οὐρά: ‘cauda’ + βόρος ‘consumo’; plural Ouroboroi ou Uroboroi) é um conceito simbolizado por uma serpente — ou por um dragão — que morde a própria cauda. O Ouroboros costuma ser representado pelo círculo, o que parece indicar, além do eterno retorno, a espiral da evolução, a dança sagrada de morte e reconstrução.

Segundo o Dictionnaire des symboles, o Ouroboros simboliza o ciclo da evolução voltada para si mesmo. O símbolo contém as ideias de movimento, continuidade, autofecundação e, em consequência, eterno retorno.

Para o gnosticismo hiperbóreo, “as serpentes, representadas no caduceu de Mercúrio (entrelaçadas em um bastão) e no Ouroboros (devorando a própria cauda), simbolizam a alma elevada, extasiada no nirvana, luminosamente entelequiada”. A forma circular do símbolo permite ainda a interpretação de que a serpente figura o mundo infernal, enquanto o mundo celeste é simbolizado pelo círculo.

Noutra interpretação, menos maniqueísta, a serpente rompe uma evolução linear, ao morder a cauda, marcando uma mudança, pelo que parece emergir num outro nível de existência, simbolizado pelo círculo. Para alguns autores, a imagem da serpente mordendo a cauda, fechando-se sobre o próprio ciclo, evoca a roda da existência. A roda da existência é um símbolo solar, na maior parte das tradições. Ao contrário do círculo, a roda tem certa valência de imperfeição, reportando-se ao mundo do futuro, da criação contínua, da contingência, do perecível.

Agora uma pausa para uma respiração profunda…

Certo, jovem Alquimista de Possibilidades… Onde você quer chegar com esse papo metafísico e metafórico todo?

Ora, vem comigo: em boa parte da vida, fluímos quase todos, quase sem exceção, por escolhas entre o que gostaríamos e o que deveríamos estar fazendo. Muitas vezes, temos a imensa bênção de estarmos fazendo aquilo que gostaríamos e deveríamos simultaneamente. Noutras, nem tanto. Nos equilibramos, na corda bamba da vida, ora mais pra lá, ora mais pra cá – às vezes fazendo mais do que deveríamos (quem julga? quem decide? quem sabe o que é o certo?) do que o que gostaríamos… às vezes, o contrário. E, de uma forma ou de outra, arcamos com as consequências.

Perdemos as rédeas da vida, querendo agradar o outro, a norma, a expectativa, o mundo. E se escolhemos satisfazer a nós mesmos – e só a nós mesmos – também criamos uma cadeia de consequências que pode nos tomar tempo, recursos, gerar incômodos, intempéries, desfechos que nem sempre são os mais agradáveis logo ali na frente.

Qual é e onde está a leveza e o equilíbrio nesta equação? Como escapar dessa roda na qual acabamos por morder nosso próprio rabo ali na frente? Ou, alternativamente, como morder nosso rabo e fazer disso algo gostoso, construtivo e positivamente transformador? Como apimentar ou adoçar o nosso rabo (para que fique ao nosso gosto) e que possamos usar essa mordida como força catalisadora para que possamos a partir daí elevar nossa alma, “entelequiá-la luminosamente” em direção ao nirvana possível?

O mais humano possível é estar atendo ao si mesmo, ao self e aos seus chamados. Sempre que ele ficar muito mudo ou sua voz sôfrega e muito distante, precisamos respirar fundo e questionar: quem sou eu e para onde estou indo. E, guardadas as devidas responsabilidades perante à vida daqueles que de nós dependem, retomar nossa voz e nossa vez. E pacifica e amorosamente comunicar isso a quem interessar possa. Com respeito, com deferência e da forma mais transparente e condigna possível.

Autocompaixão e autocuidado são condições sine qua nom para que possamos nos apresentar ao mundo da forma mais potente, disponível e eficiente possível. Para que possamos nos tornar heróis – aqueles que tem força para dois – precisamos lapidar nosso próprio ser. Oxigenar nossa própria vida e adubar nosso próprio jardim. Uma grande transformação começa pelo retorno a si mesmo.

O quanto você está disponível para si mesmo nos últimos tempos?

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Quintessencial

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